Bateu Bwe
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Celebridades Life Style

Dina Simão: “Fui uma das primeiras estilistas a divulgar panos africanos na televisão portuguesa”

Licenciada em Relações Internacionais e em Recursos Humanos, Dina Simão é popularmente conhecida por apresentar um dos programas mais vistos da TV Zimbo denominado “Sexto Sentido”, que através do qual conquistou cerca de sete prémios, fruto do bom trabalho que vem mostrando ao longo dos 12 anos de carreira enquanto apresentadora na referida estação televisiva.

Tia Dina“, como é carinhosamente tratada por telespectadores e por pessoas próximas, é considerada uma das peças fundamentais da moda angolana pelo contributo que tem prestado em prol do desenvolvimento e reconhecimento do estilismo nacional na diáspora.

A filha da província da Lunda Norte com valores culturais inabaláveis e evidentes pela forma como se apresenta dentro e fora do país, começou a sua carreira na moda como manequim, tendo após muito tempo brilhado nas passarels do país e não só, decidido dar continuidade a apaixonada profissão, Com abertura da academia Arte e Fashion, trata-se de uma escola de formação em artes. Localizada no Talatona Shopping, em Luanda, Arte e Fashion existe há cerca de sete anos e conta até ao momento, com mais de 180 jovens formados, segundo informou Dina Simão, em entrevista exclusiva à Bateu Bwé, que desde já convidamos a si, caro leitor, a acompanhá-la.

B.B- Porquê decidiu investir em moda?

D.S – Eu sou formada em costura, e também em estilismo numa das maiores escolas de Lisboa, a “Madame Moda”. Decidi investir porque, primeiro, tive uma vida ligada à moda, à passarel como manequim, quando era mais miúda, e depois, resolvi fazer um curso de Corte e Costura, e passei para estilismo. É evidente que a vida de passarel é uma vida limitada em termos de idade. Portanto, a partir daí, acho que fiquei viciada e envenenada com a moda, então abracei este caminho para dar continuidade a tudo aquilo que aprendi, quer seja na passarel, quer seja no camarim.

B.B – Qual é o número exacto de jovens que já formou e colocou no mercado de trabalho?

D.S Nós já vamos a volta de 180 -90 jovens formados no Arte & Fashion. No mercado de trabalho, muitas não aguentaram a batida, muitas desistiram, mas a maioria já tem o seu próprio espaço de trabalho e isto para mim é muito bom.

B.B – Como estão em termos de grupos de formandos?

D.S – Nós já estamos com mais de cinco grupos, porque o tempo de formação leva entre 7 e 8 meses de formação. Entretanto, eu ponho aqui a minha alma, consigo dar emprego aos jovens, fazendo  com que eles tenham um ganha-pão; elas formam-se aqui, e depois podem fazer especialidade em moda infantil, em têxteis lar, coisas decorativas e por aí adiante. Para além de formar, damos emprego, principalmente aos melhores alunos, aqueles com diplomas de mérito que têm passado aqui, e conseguimos inclusive, sugerir às minhas colegas da moda que têm ateliers, estas jovens de mérito para irem trabalhar, muitas delas hoje já têm os seus próprios ateliês, outras também dão formação.

B.B – Como consegue atender a demanda, uma vez que tem cadeiras limitadas, e as solicitações vão crescendo?

D.S – Tenho me reinventado e tenho conseguido. As condições que tenho também não são muitas; vou lutando todos os dias. Entretanto, eu ponho alma aqui, primeiro, porque é algo que eu amo. Segundo, dá-me prazer ver o resultado desta formação, pois consigo dar empregos aos jovens, fazendo com que eles tenham o pão e isto para mim é uma satisfação plena poder impactar e dar independência económica a outras pessoas que me solicitam e são aplicadas para desempenharem e desenvolverem as suas competências a nível da moda.

B.B – Quais são as dificuldades que tem encontrado neste ramo?

D.S – Dificuldades  estão nos materiais, que têm que vir quase todos de fora, cada costura, precisamos de materiais específicos, e aqui muitas vezes não encontro. Graças a Deus tenho a oportunidade de viajar para fora e é lá onde me abasteço, daí, também eu dar uma formação tal e qual como se dá a nível internacional.

B.B – A Corte e Costura em Angola ainda tem muito caminho por percorrer. Como é que olha para o estado actual desta arte no país?

D.S – A caminhar lentamente para melhor. Aliás, eu tenho uma cota parte neste sentido, tendo formado mais de 180 jovens, então tenho a responsabilidade de formar bem, para contribuir para a melhoria da moda, da costura, e da arte em Angola.

B.B – Que distinção faz entre um costureiro profissional e um não profissional, isto em termos de perfil e actuação?

D.S – O costureiro profissional é aquele capaz de chegar ao nível de um estilista, ou seja, ele além de saber estar numa máquina tem que saber conjugar tecidos, tem que ser psicólogo, tem que dar soluções aos problemas.

O estilista é um consultor de moda, é uma pessoa que entende de moda, é alguém que tem outros projectos que juntamente com o costureiro faz um casamento perfeito. Hoje, um estilista tem que ser também um bom costureiro, porque não podes só idealizar sem saber pôr a obra em pé, e um bom designer, um bom estilista tem que, concerteza, saber tudo isso.  

B.B – Quantos prémios a nível da moda?

D.S – A nível da moda tenho por volta de 16 prémios, ganhos dentro e fora do país, como Marrocos, Portugal, Alemanha, França, e Angola, é claro!! 

 B.B – Que perspectivas tem da Arte e Costura feita em Angola?

D.S- Que o meu país tenha gente competente no mundo da moda. Sabe-se que a moda é uma das economias mais forte a nível do mundo. Portanto, gostaria que nós estivéssemos a par e passos dos profissionais da moda internacionais; que o nome de Angola fizesse parte das agendas dos desfiles internacionais, e que as pessoas viessem a Angola conhecer o que é que se faz, pois temos uma cultura, uma tradição, e juntar tudo aquilo que é nosso e poder criar em termos de moda, as nossas cores quentes, a nossa fauna e flora que são riquíssimas, então, tudo isto junto dá uma coisa muito bonita.    

B.B – Há algum país que ainda não passou e deseja fazê-lo, isto nos maiores eventos de moda?

D.S- Gostaria muito de ir beber um “bocadinho” do Oriente. Já estive no Oriente, não como estilista, mas gostaria de ir beber também destes países Árabes, porque têm uma cultura tão diferente da nossa, e também têm uma moda tão específica.

B.B – Quem é o estilista do qual puxa inspiração? 

D.S – Estilista de onde bebo inspiração, yves Saint Laurent, design de moda Francês e um dos nomes mais soantes da alta costura, nascido na Argélia. Primeiro, porque ele tem uma veia também africana; segundo, porque foi um dos primeiros estilistas a conseguir pôr manequins negras na passarel. No entanto, trouxe uma história de libertação, até da mentalidade, inovação da própria moda, sobretudo da aceitação da beleza negra na passarel.    

B.B – Como é que tem sido a sua rotina na tv e atelier?

D.S – Tem sido boa. Quando nós queremos, quando temos foco, temos disciplina e fé, nós conseguimos realizar sonhos e superar-mo-nos. Temos é que ser bons gestores do nosso tempo e dos nossos sonhos, pegando as oportunidades no momento certo.

 B.B – Teve que enfrentar alguma barreira para entrar na televisão?

D.S – Barreiras não, porque eu entrei na televisão a convite. Fui convidada a fazer parte dos quadros de apresentadores da TV Zimbo, e estar ali é uma honra, eu agradeço todos os dias. As pessoas que olharam para mim viram que eu tinha competências para isso, porque eu também não sabiam que as tinha, e o tempo foi mostrando que, de facto, quem olhou tinha visão. São sete troféus ganhos como apresentadora de televisão nestes 12 anos que eu regressei a Angola.

Preconceito há sempre. Apesar de ser esta africana muito assumida, eu venho também com educações, posturas de outros países, propriamente da Europa, de uma mulher que na Europa sempre lutou pela sua cultura, sempre se posicionou com dignidade, com respeito, humildade, e com africanidade. E para eu poder conseguir isto, dou graças aos meus pais que sempre me educaram e sempre estiveram ao pé de mim e sempre souberam orientar. Também dou graças a Deus por ter me dado esse dom de nunca me ter frustrado ou desmotivado, e ter posto ao lado de mim pessoas fantásticas que puderam fazer de mim a pessoa que sou hoje.

B.B– Sabe-se que é filha da Lunda Norte. Que lembranças tem do Dundo?

D.S – Lembranças do Dundo são muitas, porque é lá onde ficou o meu cordão umbilical. Eu fui a miúda das danças na escola, do teatro. Fazia parte do Dundo Show, que na altura, no tempo colonial, fui uma menina que lhe envenenaram as veias de forma positiva com cultura, e isso é que me fez catapultar para a Europa e nunca ter perdido a minha essência, porque fiquei 35 anos na Europa (fui lá com 12 anos), e nunca me desliguei da nossa cultura.

B.B – Além da televisão e da moda, também está literatura…

D.S – Sim, trata-se de um livro que resultou da experiência que tive nos meus primeiros anos como apresentadora na Zimbo. Juntei-me a um teólogo que é o Dr. Albino  Paquissi, também professor universitário, que era muitas vezes convidado para a rubrica Educar é a Nossa Missão, que fazia parte também de um programa que tínhamos com o governo, então, resolvemos pegar nos temas e pô-los no livro.  

B.B- Foi nomeada na presente edição do Angola Comunica.  Fala-nos um pouco sobre essa experiência?

D.S – Em tempo de pandemia, fui informada de que o sexto sentido havia ganho mais dois prémios. Um para  Dina Simão apresentadora de talk show e,  e outro para o programa. Assim sendo, juntamos 8 troféus. Bênçãos para os nossos telespectadores, família, para todos que amam o meu, nosso trabalho. Joelho- me e louvo a Deus de gratidão.

Texto: Narciso Drake
Imagem: Ildo Espinha

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