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Sociedade

Bibliotecas comunitárias crescem pelo país

“O Ministro”, livro do escritor Uanhenga Xitu, pseudónimo de Agostinho Mendes de Carvalho, é o livro preferido de Leozinho, de apenas oito anos. Ele levanta-se cedo da cama com um propósito: chegar à Biblioteca Comunitária “Kandua”, no município do Cazenga, e viajar no mundo da literatura.

Leozinho ganhou, cedo, o hábito pela leitura. Acorda às sete da manhã. Com os amigos Pedro, Jair e Messi, trocou as brincadeiras nas ruas ou nas lixeiras pela leitura. Eles não medem esforços quando o assunto é leitura. “Nós só andávamos a brincar na lixeira. Não tínhamos outra coisa para fazer. Ainda não estamos a estudar, porque o papá disse que não tem dinheiro e só vou estudar já em Setembro”, explicou Jair, que demonstra ser o mais “viju”, na linguagem dos companheiros, para referir-se ao mais “esperto” ou inteligente.

Pedro já tem dez anos e ainda não lê correctamente, mas afirma que melhorou muito desde que começou a frequentar a biblioteca. “Eu soletrava, hoje, já consigo ler sem soletrar”, diz e acrescenta: “Não estou a estudar e, para não ficar a brincar na rua ou na lixeira, quando os vizinhos vão à escola, eu e meus amigos vamos à biblioteca”.
Adiantou que o livro “O Ministro”, de Uanhenga Xitu, “Glória Família”, de Pepetela, “Quero Ser”, de Carlito Lendário, “Origem do Reino do Congo”, de Patrício Batsikama, bem como livros didácticos, são os que se podem encontrar na Biblioteca Comunitária ” Kandua”, localizada no Distrito Urbano do 11 de Novembro, no município do Cazenga.
Uma napa velha e rota, suportada por quatro pequenos troncos de árvores, forma o espaço da biblioteca, montada num passeio. Há dois bancos corridos de madeira com cinco lugares cada. As medidas de biossegurança contra a Covid-19 são tidas em conta. Num banco sentam, apenas, três pessoas. Quem puder, leva um banco ou uma lata, já que vezes há que o número de leitores passa dos 20.


Como a solidariedade mora no bairro, alguns vizinhos disponibilizam assentos. Qualquer coisa serve, até grades vazias, desde que sirva para acomodar o suficiente para mergulhar na leitura, na rua movimentada. Mesmo com o barulho das crianças, o roncar de viaturas e motorizadas e o pregar das zungueiras, a concentração parece milagrosa.
A biblioteca tem o mesmo nome do bairro, Kandua. É um projecto de Argílio Massukina com outros munícipes do bairro, que decidiram partilhar os livros, criando assim um programa comunitário de leitura às quartas, sextas-feiras e aos sábados, das oito às 15 horas.
O projecto conta com mais de cem livros disponibilizados pelo coordenador do projecto e alguns doados por pessoas singulares, como o jornalista Rui Ramos que apadrinhou o projecto, com a doação de dezenas de obras literárias e didácticas.

Quinzenalmente, a coordenação traz um escritor ou amante da leitura para partilhar experiências e despertar o gosto pela leitura na comunidade. Pela biblioteca Kandua, já passaram mais de dez palestrantes, só este  ano.
“Tem sido uma experiência muito boa. Muitos jovens, hoje, estão a mostrar interesse por várias obras de escritores, principalmente angolanos, que só ouviam falar. Hoje estão a ter contacto com os mesmos”, disse Argílio Massukina.

Leitura na rua

Nos últimos anos, pelo país, muitos jovens têm-se tornado voluntários em alguma área do saber. A maioria tem recaído para a literatura. Com o “quem não tem cão caça com o gato”, não tendo um lugar propício,  os jovens montam a sala de leitura na primeira árvore, no primeiro canto, que encontram na rua. Numa mesa, às vezes improvisada, colocam os livros à disposição de quem quiser embalar numa boa leitura.
Além do município do Cazenga, há também espaços improvisados nos distritos urbanos do Kilamba Kiaxi e Samba, bem como em Viana, na Pedonal da Robaldina, onde existe até  jogos de  xadrez, e no Golf 2, debaixo de uma árvore. Fontes ligadas à Rede de Mediatecas confirma a existência de espaços do género em algumas partes do país. Todas são de carácter voluntário e sem fins lucrativos. O objectivo é único: cultivar o gosto pela leitura e tornar conhecida a literatura angolana.

A Biblioteca “Waku” está situada no distrito do Kilamba Kiaxi e comporta mais de 500 livros, entre literários, didácticos e infanto-juvenis. Grande parte do acervo foi doado pelo jornalista Rui Ramos, que também apadrinha a sala de estudo gratuito para crianças vulneráveis. Com 150 alunos, o local tem dado a oportunidade de muitos pequenos terem contacto com obras de escritores angolanos e não só. Muitos alunos sem recursos financeiros têm, assim, uma oportunidade para fazerem as suas investigações dentro do bairro e próximo de casa.

Malambi Waku Samuel, responsável pela biblioteca comunitária Waku, lamentou o facto de já bater várias portas que até hoje não se abriram. “Eu cedi o meu terreno para a criação de um espaço de leitura, porque percebi que jovens e crianças que estão fora do ensino, enveredam por caminhos desapropriados”, conta, para acrescentar: “criei este espaço para que estes jovens passem a cultivar o gosto pela leitura. Mas ninguém aceita ler um livro debaixo do sol. Por isso, esperamos que o Governo, empresários e pessoas singulares, abracem o projecto”.

Por falta de um espaço com maior comodidade, a biblioteca está bem próximo de um charco de água. As moscas e mosquitos e cheiro nauseabundo fazem-se sentir no local. Essa é uma das grandes dificuldades com que se depara Argílio Massukina, o coordenador do projecto no Distrito Urbano 11 de Novembro, no Cazenga.
“Tem livro, mas não há condições de uma leitura tranquila. Não temos um espaço maior aqui no bairro para acomodar as pessoas. Mesmo com cheiro nauseabundo que sai do charco que se formou ao lado onde montamos a biblioteca, as pessoas continuam a aderir ao projecto porque têm sede de leitura”, explica Argílio Massukina.

Diante de poucos livros didácticos e nenhum livro infanto-juvenil, a coordenação do projecto aguarda por mais patrocínios. “Muitos jovens, por falta de bibliotecas nas escolas, aparecem aqui à procura de livros didácticos para as suas investigações. Os mais penalizados são as crianças, por sinal a franja que mais ganha o gosto pela leitura, mas não temos livros infantis. A curiosidade leva as crianças a lerem outro tipo de literatura”, explicou.
Para Argílio Massukina, o cenário das bibliotecas comunitárias mostra que, aos olhos do Estado, o direito à Cultura é pouco relevante. “Sem querer diminuir a importância da prática desportiva, mas se as administrações municipais investissem em bibliotecas nas comunidades, o que conseguem desse recurso para a construção de quadra desportiva, além de atletas, teríamos grandes leitores”, afirmou Argílio Massukina.

Para os lados da Samba também funciona  uma biblioteca, a da Escola ABC na Rua, coordenada pelo jovem estudante Aldemiro Japão, que lecciona aulas gratuitas na rua para mais de 200 crianças carenciadas dos bairros vizinhos. A biblioteca, também criada pelo jornalista Rui Ramos, é bastante requerida por crianças, jovens e até adultos.
Governo de Luanda fala em registo para apoios


O director provincial da Cultura, Turismo e Desporto de Luanda, Manuel Gonçalves, explicou que vai iniciar um trabalho com as bibliotecas comunitárias. “Vamos iniciar um cadastramento e conhecer in loco o trabalho de cada uma e ver em que medida podemos apoiar, não do ponto de vista material, mas sobretudo dinamizar a operacionalidade das mesmas”, frisou.

Manuel Gonçalves reconheceu que as bibliotecas comunitárias fazem um trabalho solidário e filantrópico, logo é preciso “nos juntarmos e fazer um trabalho coordenado, para saber onde estão, como trabalham e a que medida vêm resgatando o gosto pela leitura e pelo livro”. “Conhecemos algumas e sabemos das reais dificuldades. Em muitos casos, têm problemas de livros e de material de suporte de apoio técnico”, reconheceu.

Relativamente ao “grito de socorro” dos coordenadores das bibliotecas de rua, o responsável respondeu: “a nossa participação é na cedência de espaços. Sempre que nos é colocado esta preocupação, procuramos articular com as administrações municipais no apoio dentro do Programa de Combate à Pobreza, que contempla o eixo da Cultura.”
Manuel Gonçalves acrescentou que, apesar do momento menos bom da vida económica e financeira do país, é preciso continuar a incentivar iniciativas do género, apoiando com o asseguramento dos locais onde realizam as actividades e, na medida do possível, endereçar apoios de outras pessoas particulares e colectivas.

Como sugestão, Manuel Gonçalves avança que, não havendo instalações para as bibliotecas comunitárias, se pode optar pelas móveis, nas escolas, nos bairros ou em locais onde haja frequência, sobretudo dos adolescentes e jovens.

Fonte: Jornal de Angola

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