Bateu Bwe
Image default
Sociedade

QUANDO A TUA HORA CHEGAR

Quando a tua hora de partir chegar saberei onde encontrar-te Camarada Presidente. São inúmeras as boas memórias que de ti guardo Camarada Presidente. Quanto às tristes há muito que as deitei fora. Fiz isso seguindo o que diz o livro dos livros: “perdoai para que sejais perdoados”.

Em verdade encontrar-te-ei no teu gabinete de trabalho na tua residência no Futungo de Belas, mas também na tua sala onde recebias as visitas de trabalho no outro imóvel perto da antiga assessoria diplomática e onde, por muitos e longos anos, trabalhou o teu grande director de gabinete, o muitíssimo culto Assunção Afonso Sousa dos Anjos, uma verdadeira biblioteca em pessoa.

Encontrar-te-ei rememorando as inúmeras audiências em que pontificavam os teus saudosos colaboradores/correligionários mas essencialmente teus fieis amigos Mbinda e Loy e o teu fiel servidor Man Venas.

Encontrar-te-ei nas inúmeras conferências-cimeiras em que pontificavam os teus colegas e amigos, entre verdadeiros e falsos combatentes do apartheid, da região austral do continente berço.

Encontrar-te-ei rememorando-te sentado no teu lugar a bordo do 707 comandado por Jose Luis Prata a caminho de Lusaka, de Maputo, de Harare, de Capetown, de Johannesburg, de Dar-es-Salaam, de Windhoek, de Kinshasa, de Gbadolite, de Brazzaville, de Pointe-Noire, de Libreville, de Franceville, de Lagos, de Abuja, de Casablanca, de Marrakech, de Lisboa, de Paris, de Moscovo, de Minsk, de Nova Delhi, de Bombaím, de Pyongyang, de Pequim, de Guangzhou, de New York, de La Habana, da Cidade da Praia, de Praga e de tantas outras cidades e lugares palmilhados no longo e penoso processo de busca da PAZ para a tua e nossa pátria à qual desde muito cedo te entregaste de corpo e alma.

Encontrar-te-ei sempre que rememorar todos aqueles momentos em que confiavas em mim a tarefa de traduzir e interpretar, essencialmente para a língua de Shakespeare, os teus escritos e os teus pensamentos políticos, económicos, militares e não só.

Encontrar-te-ei sempre que rememorar aqueles momentos em que com um olhar me transmitias o teu estado de alma, particularmente naquelas reuniões e encontros em que encontravas mais barreiras e entraves do que entendimento ao teu pensamento estratégico relativamente ao que fazer para a dinamização da luta contra o então inimigo instalado em Pretória.

Encontrar-te-ei rememorando um momento em que, como jamais eu havia visto, deste-nos, a mim e ao Victor Lima, quiçá o teu maior exemplo de como usar a humildade como instrumento na política e na diplomacia quando consentiste ao presidente Mobutu referir-se a ti sem respeito e sem maneiras, mas porque sendo ele na altura o ponta-de-lança da América imperialista no seu ponto mais alto contra Angola preferiste aceitar a humilhação em nome da busca da PAZ para o teu povo e país. Lembras-te desse dia Camarada Presidente? Isso aconteceu entre as 3 e as 4 horas da manhã em Brazzaville. Por uma razão que nunca entendi deixaste o teu ministro das Relações Exteriores no hotel e decidiste levar somente o Victor Lima e eu. Estavam, nessa madrugada, os presidentes Omar Bongo, Sassou Nguesso, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Mali e o próprio Mobutu, encontro esse organizado às pressas por Sassou Nguesso.

Encontrar-te-ei rememorando a vez em que, no final de uma longa digressão pela África, Ásia e Europa, visitámos o Reino do Marrocos e o Rei Hassan II teve a triste iniciativa de dizer o que jamais deveria ter dito. Profundamente irritado, deste-lhe uma verdadeira aula de Direito Internacional e de Política, tendo o Rei ficado visivelmente envergonhado e admitido o erro. Foi nessa noite que eu jantei sentado entre um rei, à minha esquerda, e um presidente da República, o do meu país, à minha direita. There’s no way l can forget this.

Reencontrar-te-ei na Cimeira de Gbadolite, particularmente naquele momento em que, ao decidires fazer fé nas bonitas palavras a dado passo pronunciadas pelo Dr. Jonas Savimbi, levantaste-te inesperadamente da tua cadeira e contra as expectativas dos teus então melhores amigos (chefes de Estado) Manuel Pinto da Costa e Nino Vieira, foste do lado de lá da mesa para apertares firmemente a mão do presidente da Unita porque acreditaste que a PAZ havia finalmente chegado! Bem que tentaste disfarçar, mas nesse dia vi-te a chorar. Nessa noite, quando nos encontrávamos no pequeno aeroporto da terra natal de Mobutu, Gbadolite, enquanto esperávamos alguns minutos antes de embarcar, o comandante José Luís Prata olhou para mim e, apontando para ti, disse: camarada Chissano, este homem é um Príncipe da Paz! Isto foi no dia 22 de Junho de 1989.

Reencontrar-te-ei também sempre que rememorar os últimos 25 a 30 minutos do voo que fizemos entre Pyongyang e Moscovo quando me entregaste quarenta, isso mesmo, quarenta (40) dólares americanos a fim de comprar laços para o cabelo da então menininha Isabel dos Santos e loiça para a tua irmã, a tua mana Marta. Disseste-me para comprar laço para cabelo de 15 dólares e loiça de 25 dólares.
(Continua)

Moisés Chissano, ex-tradutor de JES

Artigos semelhantes

Primeiro navio de passageiros e carga chega em Novembro a Cabinda

Bateu Bwe

Efectivos do trânsito da PNA auxiliam mulher a dar a luz no Kilamba-Kiaxi

Ildo Espinha

Empresas desafiadas a formar os seus funcionários

Ildo Espinha

Comente

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está de acordo com isso, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceito Saber Mais

Privacidade & Politica de Cookies
Conteúdo protegido